Ao longo do caminho colho flores

 


“Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Um dia em que conduzirá o rebanho para além do deserto, chegou até a montanha de Deus, Horeb. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama (que saía) do meio a uma sarça. Moisés olhava: a sarça ardia, mas não se consumia. “Vou me aproximar, disse ele consigo, para contemplar esse extraordinário espetáculo, e saber porque a sarça não se consome.” Vendo o Senhor que ele se aproximou para ver, chamou-o do meio da sarça: ‘Moisés, Moisés!’, ‘Eis-me aqui!’ respondeu ele. E Deus: ‘Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa’”. (Ex 3,1-5)

É o senhor que queremos encontrar no mistério que se revela e ao mesmo tempo se esconde. A experiência de Israel mostra que Deus caminha com o povo. Ele se revela enquanto caminha, caminha e se deixa encontrar. Porém, se esconde no mistério de sua transcendência, porque o ser humano criatura finita não pode acolher na totalidade o infinito, o inacessível, o insondável. A própria revelação do nome de Deus a Moisés deixa claro essa realidade: “eu sou aquele que é”. Ele permanece um mistério para o ser humano, agindo na história do seu povo e na história humana a qual ele dirige para um fim. Portanto, buscá-lo é uma atitude constante, um caminho permanente.

Para descobrirmos esse mistério que se esconde e se mostra exige-se uma atitude de temor diante do sagrado que se busca contemplar: “tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é terra santa”.

Algumas crianças depois de alguma traquinagem, de alguma travessura, se aproximam dos pais com receio, medo e até mesmo pavor. Não sabem como eles vão reagir. Lembro-me de certa ocasião em que ia ser expulso de uma escola por ter me envolvido em uma confusão. No caminho eu contava os passos e ensaiava o que ia dizer a minha mãe que pudesse abrandar sua fúria. Nada adiantou. Usando um linguajar bem cearense: Foi muita peia! Ainda bem que meu pai chegou. O bom é que com tudo isso eu pude aprender o que o temor de Deus é e o que ele não é.

Nossa relação com Deus não deve ser de medo ou pavor, mas sim de respeito e reverência, por tudo o que ele é. Diante do seu amor vem o nosso desconcerto, nosso deslumbramento e como o profeta Jeremias podemos declarar-nos vencidos: “seduziste-me Senhor e eu me deixei seduzir; mas forte fostes do que eu e prevaleceste” (Jr. 20,7). Nesse sentido o temor se transforma em encantamento, pois Deus caminha conosco pelo jardim da vida e sua beleza nos fascina.

 Deus é o jardineiro que nos plantou nesse mundo e cuida de nós para que seu cheiro seja sentido através do nosso testemunho. Mas, não podemos esquecer do vizinho que cheio de inveja, rancor e raiva, pisa nas flores do jardim para causar dor ao jardineiro que tanto cuidado teve ao plantá-las. Esse vizinho é o demônio que age nesse mundo querendo destruir o que Deus plantou. Ora, devemos impedir a ação desse vizinho e para tanto devemos resistir às tentações, fugir das ocasiões de pecado e vigiar para que sua ação não perturbe, perverta ou estrague nossa vida.

O livro dos Provérbios diz que “O temor do Senhor é fonte de vida para evitar os laços da morte” (Pr. 14,27). O pecado gera a morte, por isso devemos nos afastar dele. Se queremos a vida e não a morte devemos buscar a Deus, fonte de todo o bem e “aborrecer o mal” (Pr. 8,13) pelo esforço de uma vida santa. Portanto, devemos cultivar no jardim da nossa vida, o que nos aproxima do Divino Jardineiro, e a disposição para tanto nos é dado pelo santo temor. Através desse dom reconhecemos o que é belo, justo e verdadeiro. Esse dom de Deus cresce em nossa vida à medida que nos distanciamos do que nos afasta de Deus. Se me aproximo de Deus me afasto do mal. Se me distancio de Deus, me aproximo do mal. É simples. 

Quando falta o dom do santo temor, os olhos se fecham e não se enxerga mais o mal que fazemos a si mesmo e aos outros. Quando jovem, gostava muito de beber com meus amigos. O problema é que eu só tinha 15 anos e já bebia a semana quase toda. Mas naquela época não achava isso um problema, ao contrário, via nisso uma coisa boa. Os colegas me viam e gritavam: “vamos beber” e eu respondia prontamente: “vamos sim”. O perigo do alcoolismo rondava a minha vida e eu não conseguia perceber isso. Muitas vezes rezo louvando a Deus por ter me livrado desse mal. Quantos hoje sofrem justamente porque não enxergaram o mal que estavam fazendo a sim mesmo e aos outros? O temor do Senhor abre os nossos olhos à medida que nos deixamos amar por Ele.

Rezemos pedindo ao Espírito Santo que nos de esse dom:

“Divino Espírito, que é fruto do amor do Pai, e do Filho. Inebriai-me de amor de tal forma e tanto que eu não consiga fazer algo além de amar a Deus e ao próximo. Amém.”

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